da desilusão da minha frustração (ou do seu inverso)…

julen03© the guardian
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caro Julen,

antes de tudo, permite-me o tom cordialmente informal nesta missiva. não nos conhecemos pessoalmente, mas já foram tantas as vezes que estivemos próximos – seja nesse local mágico, que dá pelo nome de Estádio do Dragão (o meu teatro de sonhos azuis-e-brancos), seja quando me entras pela sala de estar, via televisão cá de casa – que quase que te considero da família.
e é sobre aquele “quase” de que te quero falar.

por esta altura já estarás ao corrente da mossa que a exibição da passada Terça-feira criou na massa adepta portista. se ainda não estás, convido-te a dar uma vista de olhos aqui, aqui, aqui e aqui, aqui e aqui, aqui, aquiaqui e aqui. em todos estes espaços, de gente abnegada em prol do Clube, nesse “marabilhoso mundo que é a bluegosfera”®, encontrarás um denominador comum, um sentimento que trespassa a Alma de cada um deles e da minha, tão, mas tão forte como cruéis punhais a dilacerarem um peito nu: frustração (a antítese da tal “illusión” que tanto apregoas).

tu sabes que foi mau, Julen. mau demais para ser verdade, e depois de teres vendido a ilusão de que, no «jogo mais importante do ano», tudo iríamos fazer para levar de vencida um adversário poderoso. e falhámos, Julen. redondamente. com (muito) estrondo. com uma dor idêntica à de um murro que nos é desferido no estômago, vindo do Nada. e a um travo amargo de derrota mais insuportável que um pestilento hálito matinal, depois de se ter emborcado a garrafeira toda lá de casa.

sobre o jogo em si, quem sou eu para te dar lições sobre questões técnico-tácticas-coiso? ninguém! mas se hoje, 72h depois do descalabro, ainda estou completamente fodido dos cornos, também quero acreditar que no balneário terá havido tudo menos sorrisinhos, palmadinhas nas costas e afins, a começar por ti, enquanto responsável máximo pelo grupo de trabalho à tua disposição – um grupo de trabalho escolhido por ti e com a anuência da SAD azul-e-branca, é bom lembrá-lo.
e sim, Julen, fomos humilhados em nossa casa, no nosso reduto, no tal jogo «mais importante do ano», como o classificaste – um jogo onde fizemos n-a-d-a para inverter um rumo que se começou a traçar ainda no papel, com essa tua “invenção” em abdicares de um produtivo 1-4-4-2 para as competições em detrimento de um 1-4-3-3 estilo “auto-estrada” para o golo adversário. e em teres deixado um pêndulo do nosso meio-campo sentado no banco de suplentes. e, depois, tudo o que se seguiu – e decisões dúbias do car(b)allo à parte…

e essa noção do ridículo que fizemos durante aqueles 90′, Julen, isso é que ainda me dói. porque e ao contrário das ‘hashtags’ da moda, fomos tudo menos “Porto” na Terça-feira: acima de tudo não suámos a camisola; não quisemos levar de vencida as adversidades que um autêntico dínamo ucraniano nos impôs; rendemo-nos inapelavelmente a um conjunto que começou a vencer nas provocatórias declarações antes da partida, as quais não soubemos capitalizar como a necessária “gasolina” para a “incendiar” como deveríamos…
ou seja, Julen: fomos uma cambada de morcões, semelhantes a um conjunto de perús bêbados, sem qualquer rumo naquelas imensas quatro linhas sem fim à vista. e fomos lorpas o suficiente para acreditarmos, já nos descontos, que ainda era possível inverter o que a Realidade nos espetava nas fuças, à força toda. eu pelo menos fui, Julen. e ainda estou dorido (também) por ter acreditado – tal e qual como nas outras cinco (dolorosas) derrotas e na esmagadora maiorias dos (perturbadores) catorze empates que já amealhámos em sessenta e sete jogos oficiais, à data desta mágoa que transporto no coração e da qual te dou conta. e, convém recordá-lo, Julen, em todos esses momentos infelizes, o “sentido de oportunidade” em que aconteceram, fazem com que muita da massa adepta do FC Porto tenha alguma razão para considerar que tu e a equipa ao teu dispor, falham nas alturas decisivas. eu já me rendo a essa evidência, assim como a esse facto que atesta que, quando acontecem esses infortúnios, fazemo-lo com sublime estrondo, ao ponto de, por exemplo, a derrocada de Terça-feira estar prestes a colocar em causa toda uma época desportiva, sobretudo na necessária confiança que se pretende transmitir (também) para a massa adepta…
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em suma, Julen:
estou (literalmente) doente desde Terça-feira, à noite. o meu coração não aguentou e fui de urgência a um hospital do Grande Porto (adoro esta expressão, mesmo quando não me quero referir ao meu clube de Sempre). a dor foi muita e ultrapassou a amargura de um resultado que transpareceu tudo o que não fizemos em campo, ao ponto de me ter chateado mesmo valente, pois que, a a partir do remate do André² à barra, não me recordo de mais nada. porque “eclipsei”, Julen. mas eu fi-lo quase no final da partida e enquanto adepto; tu e os ‘niños’ que tens ao teu dispor, fizeram-no desde muito cedo, assim a modos que a partir dos 20′ e não mais se encontraram – ao contrário da minha pessoa, que já regressou a casa e está a contrariar as ordens da médica (boa gente, todos os dias e com um sorriso muito feminino…).
neste momento, Julen, não tenho como o esconder: sinto-me traído por ti e pelos teus. alguns dos que visitam o estaminé desta «ovelha choné» sabem o quanto dou o corpo às balas (e aos “lápis afiados”) em tua defesa e dos ideais (e do modelo de jogo) que preconizas para a Equipa – não porque me devas seja o que for, ou porque estou em dívida para contigo, antes porque és o treinador do Futebol Clube do Porto, logo e por inerência, um dos meus, car@go! e até podes ser teimoso como uma mula – que és, Julen! que és! – e inventares amiúde, com resultados desastrosos para todas as partes envolvidas – que o fazes, Julen! e sabe Deus como isso me irrita… -, mas também és um dos meus/nossos, e enquanto Pinto da Costa quiser que sejas o seu treinador. e, estou certo, serás portista quando houver a necessária necessidade de Mudança. mas esses, são outros “quinhentos”, porque, neste entretanto, tens um enorme desafio à tua frente: reconquistar a minha confiança e a de muitos (?) portistas que, tal como eu, ainda padecem com estes revezes, com estas derrotas que nos humilham – mais pelo facto de alimentarem a corja que gravita pelo jornalixo tuga, de lhes conferirem tema de conversa e de cachota por (mais) alguns dias, do que pelo resultado em si. curiosamente a mesma corja de sabujos que tanto te despreza desde o primeiro dia que chegaste à ImBicta e à qual te deixam só, abandonado ao teu (triste) Fado…
e se tiveres dúvidas do que escrevo e ainda tiveres tempo para tal, convido-te a dares uma vista de olhos ao que se escreveu aqui e aqui (no pravda da Travessa da Queimada), ou aqui e aqui no pasquim do ‘quim oliveirinha), nas edições impressas a seguir à derrota vexante de Terça-feira. ficarás a saber que quem te quer é a massa adepta portista – ou pelo menos, alguma desta. temo que já só uma ínfima parte, com a esmagadora maioria prestes a brindar-te com assobios, vaias e sabe-se lá que mais, sempre que claudicares e desde a tua primeira hesitação…

portanto, Julen, está nas tuas mãos reconquistares essa confiança que, no Presente, está amachucada, amarrotada, amorfa, enxovalhada, descrente. e muito. a começar já no próximo Sábado, ante o Tondela, em Aveiro, naquela que será a primeira partida do que resta de uma época que ainda vai no seu primeiro terço…

abr@ço
(sem ser muito forte, que ainda estou combalido)
Miguel | Tomo III

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[mensagem enviada, via faceboKas®, para a página oficial de Julen Lopetegui]

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16 thoughts on “da desilusão da minha frustração (ou do seu inverso)…

  1. A ideia inicial do Lopetegui até me pareceu ser boa, já que todos acreditávamos que o Kiev ia jogar ao ataque.
    Na minha opinião, o mal esteve na incapacidade do treinador perceber que não iria ser assim e, portanto, tirar o Tello e meter o André.

    Liked by 1 person

  2. Antes de mais, desejo-te as rápidas melhoras.

    Sobre o jogo de Terça, até acredito que a ideia de entrar com o Tello era boa, mas sempre para o lugar do Brahimi e nunca do André André. Assim ficámos com os dois laterais desapoiados e um meio campo muito combativo e pouco dinâmico, em especial nos momentos ofensivos, e sempre à procura da bola, coisa que nunca conseguiu segurar.

    No fundo, fez uma casa sem fundações e pilares. O resultado foi um desastre. Morreu uma família… e como tal tem de ser responsabilizado.

    Sempre fui crente em Lopetegui, mas já lá vão muitos jogos e muito tempo, e sempre com os mesmos problemas. Não consegue tapar as nossas fragilidades nem potenciar as qualidades.

    Sobre falharem nos momentos decisivos, acho que falta-lhe carisma. Todos se todos os jogos são dificílimos, para os jogadores não existe motivação para os importantes. Se já estou saturado, imagino os jogadores…

    Abraços e mais uma vez, as melhoras.

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    1. @ pyrokokus

      muito obrigado! pela visita, pelo comentário e pelas gentis palavras!

      felizmente já estou melhor; só a dor no coração, pelo mesmíssimo amargo de boca que tu também tens, é que teima em passar. lá está: é uma questão de se reconquistar a confiança. e esta, no Presente, está um pouco ausente…

      abr@ço
      Miguel | Tomo III

      Gostar

  3. Caro Miguel,

    Como eu te compreendo…!!!
    Só para referir irmanados na dor espiritual que nos dilacera o espírito…!
    Portanto 100% de acordo. Mas mais, Lopetegui foi aselha, sim…! Ao não colocar André André a jogar logo de início até onde ele aguentasse. Depois sim, do resultado eventualmente feito, poupá-lo.
    Também não percebi aquela de colocar o Imbula, sem rotina ao lugar, a defesa direito…!!! Mas mais ainda, porque não optou ele por Bueno que tão boas indicações deu no jogo da Taça em vez do Osvaldo que tarda em convencer/justificar a aposta nele (mais parece um corpo estranho na equipa)
    E são só algumas questões que coloco para afirmar que Lopetegui falhou rotundamente, meteu demasiada água, numa conjuntura crucial para o nosso clube, que seria passar os oitavos de final.
    Conclusão estou muito zangado/desiludido com Lopetegui e desde já afirmo que vai ser muito difícil o actual técnico dos Dragões demover-me deste meu sentimento.

    Irmanado na dilacerante dor

    Armando Monteiro

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  4. Caro Miguel.
    Depois daquele jogo também estou com um sentimento de alteração no meu corpo, sinto frios que não os costumo ter, uma nula vontade de fazer o que quer que for e mais uma lista extensa de sentimentos inexplicáveis.

    Quero acreditar que este texto, tão profundamente bem escrito tenha efeito para o futuro.

    Já chega disto!
    O desporto, pratica-se correndo e fazê-lo por gosto!
    Em alta competição só se pensa em ganhar!
    Já estou farto deste futebol sem alma!
    Despertem! Alegrem-se!
    No FC Porto só vos trás alegrias se o trabalho for feito em prol do Clube, não em prol de egos!

    Resposta em Aveiro contra o Tondela é de nível Urgente!

    Abraços.

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